*Nega*Sil*

É por isso que eu digo...



Sábado, Março 10, 2007

É o que me resta.

Você sabe o que é nascer ouvindo falar de Chico, Vinícius, Gil, Elis, Betânia, Tom? Crescer ouvindo aquelas músicas que ninguém (ninguém que eu digo o ¿povão¿) mais curte, ou nunca curtiu? E em pleno séc XXI ter essas relíquias no seu mp3, parece piada! Penso que deveria ter nascido nos anos 60, 50, 30, um tempo em que se ainda faziam músicas de qualidade. Ainda curo esse som, cultuo os mesmos ídolos, toco as mesmas canções... E até vou comprar uma calça xadrez...
A ditadura foi um mal necessário, com a liberdade de expressão vetada, o contraditório aconteceu, pudemos falar, expor nossos ideais, mas é claro, tudo nas entrelinhas... E foi aí que se revelaram os gênios da música Popular Brasiléia, escrevendo letras inteligentes, de difícil interpretação para os leigos. ¿Cálice¿ de Chico e G. Gil é um exemplo claro dessa virtude.
Sempre quis vê-los de perto, poder abraçá-los, e mesmo movida pela emoção ficar calada apenas admirando meus ídolos eternos! É uma pena que num país de terceiro mundo, temos que pagar tão caro pela arte.
Tamanha foi minha alegria e igualmente minha decepção ao saber que Chico e Betânia vão estar aqui em Curitiba fazendo um show inesquecível no tão burguês Teatro Guaíra.
Os ingressos são uma agressão ao público, 280 à platéia de Chico e 200 a de Betânia, hunf! Eu poderia pagar 70 e vê-los do lustre (Terceiro balcão ¿ provavelmente na ultima fileira)...
¿O povo brasileiro precisa de cultura!¿ diz o nosso Ministro, ¿O povo brasileiro precisa ter acesso a cultura¿ digo eu.
Ah Chico, desde o começo do ano quando soube da sua vinda fiquei sonhando com o dia do show, acreditando que um milagre pudesse acontecer e que a nossa queridíssima produtora cultural Verinha Valflor desse uma chance aos trabalhadores e anunciasse o PREÇO POPULAR!
Porém mais uma vez o acesso à cultura ficará a uma minoria seleta...
E agora o que me resta?
Continuar ouvindo suas músicas sem poder te dizer o quanto te admiro e o quanto você foi, é, e continuará sendo importante na minha formação musical.
Obrigada por existir!

Cálice

Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil
(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

(refrão)

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

(refrão)

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

(refrão)

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

postado por: Silvia Leopoldina Rolim da Silva 11:27 AM


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